Quero-me rendida no teu corpo lasso - (Análise de poema de Fernando Pessoa)

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Quero-me rendida no teu corpo
Lasso
Onde quente de ti
Nos silêncios em que te ouço
Te amo em amplo abraço
Saciando-me na tua pele
Porque me electrizas
Em ondas e arrepios
Quero ler-te sedenta de enigmas
Como se me viesses de dentro
Inequívoco
Como se fosse também eu, tua pertença
Desde sempre
Nas longínquas palavras e melodias nossas
esgueiradas em memórias viscerais 
tudo regressa à raiz por ser seiva
assim pugno por nascer tua liquida
em cada nascente como grito de sangue
em cada fogueira sacerdotisa do amor
em cada poema rima voraz
em cada caminho brutal emanação
como o idioma invicto 
em que professo esta rendição

                 Camila Carreira


«Na casa defronte de mim e dos meus sonhos» 
Interpretar um poema de Álvaro de Campos

Poema de amor e abraços com sabor a quietude - Análise da poesia de Fernando Pessoa.

Aqui em nós, é outono
A dar à luz beijos sobre pálpebras
E abraços com sabor a quietude –
Pelo cântico da lenta e plural leveza da chuva
Dança-me o silêncio intacto desta hora 

Saboreio-te na língua polpa fresca
A respiração meio curta do cansaço
Êxtase delicado como brisa de borboleta –
E morrem amantes nesta fragilidade.
Da caricia insaciada 
A existência devia ser consolo em si mesma. 
Mas fazemos cerco à carência 

Embalada no abraço inteiro do teu corpo 
Sei da chuva que se denuncia mansa
Acontecemos por acaso entre ela e a ironia
entre poeiras com aroma de cinza... 
secreta evidência dos gestos que nos incendeiam
suprema fagulha acendendo-nos a vida e o sonho - 
despertos do clarão cru do céu nocturno 

Era manhã toda azul de névoas lívidas 
e ao som de Chopin 
desci as vielas do teu silêncio
De esquinas frias mas deslumbrada
fincando os pés nos teus pensamentos
Tentando adivinhar-te
a cada dia saudades fluindo pela noite dentro 
Incitando à vida este amor 
todo reunido em nós 
Só amar cumpre a grandeza da vida



Camila Carreira

Poema do Amor cósmico - Análise do pastor poeta Alberto Caeiro

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todas as citações falam de nós
- torso com muitas alíneas
onde entalhamos a vida 
lavrada de arrepios de amor 
com bocas e mãos em harmonia
subitamente nós no mesmo assombro
e o amor sopro sempre tão original

Existe é força cósmica em mim.
Braço imenso, intenso e abstracto
Olhos em labareda de almas quentes
Beijos como meteoritos atravessam vazios
Incendeiam relâmpagos,
Ininteligíveis velozes
Fixo-me nas estrelas para te chegar
Sentir-te no sopro que és, de vento
Escutar-te nas vagas que és, de mar
Esboçar-te no infindo que és lunar
Serei pássaro ou força esvoaçante
Que te sonha sobrevoar.
És excesso de mar nesta enseada
Colo de virgem apaixonada
Farta inchada 
Nem o espaço nem o tempo
Te apartam de mim
Sinto-te perene a ficar.
Como a lua com o luar
Ou as ondas com o mar
impossíveis de separar...
És a ilha deserta quando naufrago
És universo, sem princípio nem fim,
Amplo azul... para mim 


** Camila Carreira***

Poema do inatingível abismo onde a viagem termina

poetisa portuguesa, poemas de rosas e cinzas, camila carreira poetisaSurpreendo-me em dias que se desmentem
Em que me sentando à luz da Primavera
A sinto Outono, fosca triste de almas caindo
Flui do crepúsculo líquida melancolia
escuto a noite que exclama solidão
Entediada plo marasmo e prostração
Agito os dias para ouvir o ruído da vida
Sem viço entro pelo outono e fluo
Caída nessa vertigem dos dias noturnos
Exumo efémeras raízes da mentira
Que inventei para ter que viver
infindas noites seguidas de dias!
morrendo a cada outono
como folha caída
Anjos e demónios digladiam-se em mim
Desarrumam-me o interior do corpo todo
E procuro dentro de mim um esconso
Um canto a que me encostasse
Uma sombra que me ocultasse
exaurida das extenuantes horas baldias
Onde só busco desta via, uma saída
Percorremos cegos, adictos essa estrada da vida
num incontornável e único rumo 
o intangível abismo onde a viagem sempre termina


***Camila Carreira***

Poema do amor que me consumia

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Tentei fugir de te amar 
Cansada de dor e a sucumbir
Dias sós de lágrimas a brotar   
Por um amor que nem quero sentir
Torpe doer que me vicia 
De todos sentidos tanto me exigia
Como boca que não se sacia
Obliquo de noite e de dia 
Amar só me consumia 
na dor que me perseguia

Amor que nas árvores florescia 
No bolhar do mar efervescia 
Gelava nos mármores do altar
Molhava os meus olhos ao luar 
Suspirava no meu respirar
Nas portas que fechava rangia
Viciava os livros que eu lia
Acordava-me enquanto dormia

Doendo... a dor Ubíqua doía...  
No horizonte era névoa e nostalgia
Na solidão minha viva companhia
E mesmo quando triste eu sorria
Amar-te também me feria

A dor é suprimento clandestino 
Quente e vasta te procrastino
Sem amar seria eu fria e vazia
E por certo, inerte e pétrea... morreria!


*** Camila Carreira *** 

Poema do amor como vagas do mar

versos de amor, quadras de paixão, poesia negra, rimas de namorarFlutuo no sonho ao vento 
Como onda do mar ao relento 
Ondas de ternura e de alento
De seda fluídas neste tempo 
E Rasando meus lábios famintos
Acordam-me sonhos extintos 
Onde sempre te sonhei beijar  
Sentir-te como mar sereno
Maresia na pele a roçar 
E em paz e pacato deleite  
Senti o ímpeto de te amar
Como vagas que se alevantam
Bruscas sem amainar
Galgam barreiras e muros
Invadem recônditos escuros
Onde escondera inseguros 
Meus segredos de te amar 


***Camila Carreira *** 

Poema da dormente ousadia

camila carreira, poemas de amor rosas e cinzasAcorrentada no desamor que me amortalha
Vestindo este semblante triste minha mortalha
Ressequido meu amago como facho de palha
Desalentada… finda em jangada que encalha

E se minha alma levitava em sonhos tantos
Desenganada caída dissipou seus encantos
Derribou-se débil rendida em prantos
De esperança esvaída pelos recantos

No negrume da noite intentei a travessia
Eu só e presa na infinda bruma, sem dia
Sem estrelas nem luar, ai quem me guia?
Quem me desperta esta dormente ousadia?

****** Camila Carreira *****


Momentos de cultura e outras curiosidades poéticas... 


Bernardo Soares

Não toquemos na vida nem com as pontas dos dedos.